
| Quarta-feira, Junho 30, 2004
............................................................ Um pouco sobre Kingston Se você não é um aficcionado por música jamaicana, não vá a Kingston. Tudo na cidade gira em torno da música. Tudo. A cidade é feia, caótica, com fama de violenta e sem atrações turísticas convencionais. É pôr isso que é raro ver turistas nas ruas. Bem, têm os japoneses, mas também aonde eles não estão? Vi vários japas rastas, que segundo me disseram, são os responsáveis por acabar com os estoques de roots e dub da ilha (os ¿oldies¿, segundo os jamaicanos) e uma porção de outros no estilo dancehall/hip hop, com bonezinho virado pro lado e toalhinha no pescoço. Mas a maioria, leia-se americanos bolachudos e endinheirados, escolhe os resorts ¿all inclusives¿ de Montego Bay, Negril e Ocho Rios. Mas, em compensação, se você gosta de reggae e, em especial, de dancehall, Kingston é o lugar certo. Em menos de cinco minutos de corrida de táxi, saíndo do aeroporto Norman Manley, com ¿Murderer¿, do Barrington Levy e uma do Black Uhuru, que não me lembro qual, esporrando no rádio, eu já tinha me dado conta disso. Aliás, perdi por uns 10 dias um show reunion com a formação clássica do Black Uhuru, substituíndo a finada Puma Jones pôr uma outra cantora. Em Kinston, andei praticamente de táxi o tempo todo. No trânsito, a Jamaica só perde em acidentes com mortes para a Índia. Portanto, dirigir lá é praticar esporte dos mais radicais, ainda mais se você considerar que a mão é inglesa, a língua falada pelos jamaicanos não é o inglês e que praticamente todo mundo anda com uma faca no bolso. E além disso, pra piorar, Kingston não é um lugar para se andar a pé. Muito menos porque é perigoso, mas porque não existem ruas cheias de coisas perto uma das outras, como uma Visconde de Pirajá da vida ou uma rua movimentada de Nova Iorque. Orange Street, em downtown, onde ficam boa parte das lojas de discos bacanas é a exceção. Se bem que, das quatro lojas que eu tinha endereço, duas estavam fechadas, a GG¿s e a Prince Buster¿s. Sobraram a Techniques e a Rockers International. Mas nada de 70¿s, só dancehall e nu roots. A grosso modo, dá pra dividir Kingston em duas, uptown e downtown. É na primeira que se localiza New Kingston, bairro onde 99% dos turistas, incluíndo eu, se hospedam e fazem a maioria das coisas. Na minha ingenuidade, não sabia que havia tanta riqueza em Kingston. Mas é óbvio, onde tem gente pobre tem também um monte de ricos exploradores. Às vezes, entre uma corrida de táxi e outra, entrava numa viagem que estava nos Estados Unidos, com seus Burguer Kings, KFCs e McDonald¿s. Aí vinha o gravezão das caixas de som e eu caía na real. Falando nas caixas de som, elas são uma atração à parte na Jamaica. As ¿wall of sound¿ estão em todos os lugares. Qualquer birosca, pôr mais tosca que seja, tem um monte delas, uma em cima da outra. Com certeza, a Jamaica deve se o país com o maior índice de caixas de som/habitante do mundo. E quando você vai a um lugar mais profissa, como um sound system, pôr exemplo, o tamanho da parede é assustador. A relação do jamaicano com o som alto é tão forte, que se você entra numa de abaixar o volume de qualquer estéreo que seja, vão te chamar de babylon, uma referência ao fato da polícia sempre diminuír o volume dos sounds que funcionam sem permissão. Downtown é o lugar onde você vai querer estar a maior parte do tempo. Todas as referências à Jamaica, as cores, as propagandas nos muros, com zilhões de tipologias diferentes, as esquinas cheias de rastas, que parecem saídas das capas de disco, o design cru, as tendinhas de frutas e carrocinhas de jerk, o churrasco local, estão em downtown. Só não vale se aventurar muito nos guetos, pôr que aí, mermão, é como entrar na Cidade de Deus ou na Baixada pra dar um rolé. Eu e meus companheiros de viagem fomos até Waterhouse, mais especificamente, na Klin Klin Avenue, entrevistar o U-Roy. Sinistríssimo. Fomos recebidos com gritos de ¿go whities¿ e o caralho. Simpático, não? Uma das melhores coisas a se fazer em Kingston é conversar sobre música com um local. E nessas conversas, pude perceber que os jamaicanos estranharam, e muito, o fato de não estarmos lá pôr causa do Bob Marley. Ganhamos muito respeito por causa disso. Foi como se tivéssemos ganho um código de honra, ou algo do gênero. Demorei um pouco pra me tocar, mas os selectors de todos os lugares que a gente ia, botavam Bob Marley pra nos agradar. É mole? Conversei um dia com um cara chamado Toby Hookim, filho do lendário engenheiro de som do Channel One, Ernest Hookim, e ele ficou de cara com o meu conhecimento. Sem me gabar, não sou disso, mas parecia que ele nunca tinha visto um gringo tão vidrado na música deles. Quando disse que meu cantor favorito era o Horace Andy, Toby me olhava como se eu fosse um alien. Depois, enveredou por uma série de perguntas técnicas, tentando me dissecar, entender daonde vinha tanto prazer pela música de lá. ¿Mas você gosta mais do ritmo ou das letras?¿, perguntava ele. Hehehe. Depois escrevo mais sobre Kingston, sobre como é difícil o relacionamento com o jamaicano, seja pelo patois, seja pela cultura e, é claro, mais sobre sound systems e música. As fotos vem daqui a pouco, aguardem. FRANCISCO LINHARES ecos: Terça-feira, Junho 29, 2004 ............................................................ Festa da boa ![]() FRANCISCO LINHARES ecos: ............................................................ História da música jamaicana "Studio One was good elementary, high school, college, university: that's were i learn everything." Horace Andy Estou de volta. Como são muitas histórias pra contar, vou escrevendo aos pouquinhos, um texto por dia. Vou começar com a última coisa que fiz na Jamaica. Não só porque tá fresquinho na cabeça, mais porque foi o que de melhor aconteceu por lá. E olha que não foi pouca coisa. Sábado passado, dia 26 de junho, rolou no Mas Camp, em Kingston, um tributo a Coxsone Dodd, um dos maiores pilares da música jamaicana, fundador do Downbeat Sound System e do Studio One. A idéia original era comemorar os 50 anos de fundação do estúdio, mais como Dodd faleceu há pouco mais de um mês - quatro dias depois da rua onde fica o estúdio, a Brentford Road, passar a se chamar Studio One Boulevard - um tributo era mais do que inevitável. No palco, mais de 30 artistas que gravaram no estúdio, com a exceção do Wee Pow, selector e chefão do Stone Love Sound System, que botou som num dos intervalos do show e Derrick Harriot, um dos grandes nomes do rocksteady. A desorganização jamaicana (papo pra mais tarde) é tanta que em nenhuma das mídias responsáveis pela divulgação do evento, como cartazes, flyers e comercias de TV, diziam o horário do começo do show. Mas um papo com o irmão do Dennis Brown na véspera do show (lá é assim, um dia você troca uma idéia com o irmão do Augustus Pablo, no outro dá um rolé com o irmão do Tappa Zukie, encontra com o Lone Ranger numa loja de discos e assim vai) me deu o caminho das pedras. Cheguei 8/ 8:30, com o público, na maioria da velha guarda, ainda chegando. Nas pick ups, o homem mais feio da Jamaica, o deejay King Stitt, tocava vários clássicos do estúdio, em especial, músicas dos Skatalites (parte da renda do evento foi destinada a Alpha School, escola onde boa parte dos Skatalites aprendeu a tocar seus instrumentos), fazendo vez ou outra suas características interjeições. Pra quem não sabe, Stitt foi um dos primeiros deejays da ilha, na ativa desde 1957, quando nem o ska havia nascido. Quando entrou a banda, o que veio a seguir foi uma aula de música jamaicana. Teve de tudo. R&B, boogie, ska, rocksteady, reggae, toast, dub e rub a dub, muito rub a dub. Os destaques foram: Sugar Minott, Errol Dunkley, Prince Jazzbo, Bunny Brown (vocalista do Chosen Few, arrepiou com um dubwise de responsa), Frankie Paul (o mais style), Lone Ranger (presença de palco absurda), Strangejah Colie, Ranking Trevor, o casca Cornell Campbell. O esquema era o seguinte. Cada artista tocava em média duas músicas e saia fora, com o próximo artista sendo anunciado pelo MC Bob Clarke. Qualquer aplauso no começo de uma música gerava um rewind da banda, o "pull up", como todo na Jamaica fala. Foi uma grata surpresa. Não tinha a menor idéia que essa prática comum nos sound systems também rolava direto em shows. Apesar dos amigos que estavam comigo, o Bruno Natal e o Felipe Continentino, não terem visto, eu, por duas vezes, tive certeza que o Horace Andy estava anunciado num dos cartazes. Quando Bob Clarke anunciou que tinham ido buscar um dos cantores na Inglaterra, especialmente pro evento, não tive dúvida que era ele. Mas no final das contas era o Cornell Campbell, que arrepiou com "Stars" e "Boxing". Fiquei sabendo que na Jamaica rola direto de anunciar artistas que não vão tocar só pra dar mais retorno. Mas se Horace Andy não veio, Prince Jazzbo tava lá. Sua versão pra "Skylarking", "Crabwalking", foi matadora. Carrocinhas de jerk e curry goat, cerveja Red Stripe e rastas vendendo maconha e bandeiras com o rosto de Selassie têm em qualquer lugar da Jamaica. O que fez toda a diferença no show de sábado foi o público. Calmo, respeitoso, na sua. Mas saí do show com um estranho feeling: que o tributo não teve a força que merecia. O show, na minha opinião, tinha que estar repleto de jovens, de fãs de dancehall, de artistas contemporâneos. Um homem como Coxsone não merece apenas aplausos da velha guarda. Uma pena, porque, como Sugar Minnot ("Oh, Mr DC" foi o seu melhor momento) e Cornell Campbell não cansaram de repetir durante um segundo: this is original, yunno? Quem sabe em outubro, quando rola mais uma edição do tributo, e que depois vira evento anual, os jovens jamaicanos se tocam que o homem é foda. FRANCISCO LINHARES ecos: Quinta-feira, Junho 17, 2004 ............................................................ Irie news parte 2 Stone Love Headquarters, Passa Passa, um soundsystem tao bom quanto o primeiro que eu tinha ido, o Rae Town, so que dessa vez, com porradas agressivas de dancehall, ao inves de roots, e entrevistas com Sly Dunbar, Gussie Clarke, Mutabaruka, Dr. Carolyn Copper (especialista em reggae, doutora da faculdade de KNG). Ah, e uma surpresinha "special" pro meu set. Melhorou? FRANCISCO LINHARES ecos: Segunda-feira, Junho 14, 2004 ............................................................ Irie news Visitar o estudio do Bunny Lee, conhecer a casa do King Tubby e ir num legitimo sound-system jamaicano. Ta bom ou quer mais? FRANCISCO LINHARES ecos: Quarta-feira, Junho 09, 2004 ............................................................ Sonhos se realizam
Até dia 27. One Love. FRANCISCO LINHARES ecos: ............................................................ Febre
Amanhã, quinta, vou iniciar os trabalhos na Febre, a mais tradicional festa de db do Rio. Tudo a ver, já que o dub é o pai do drum 'n' bass. Toco das 23h as 0h30. Quem quiser entrar na lista de desconto e pagar apenas R$6, clique aqui. FRANCISCO LINHARES ecos: Quinta-feira, Junho 03, 2004 ............................................................ Dub Debut
cliques: Joca Vidal + Felipe Continentino Foi muito bacana minha estréia nas pick ups ontem no 00. Fiquei bastante nervoso no início do set, me enrolando feio na mixagem das três primeiras músicas. Uma das minhas agulhas tava com mal contato e tive dificuldade pra me entender com o retorno, o que piorou ainda mais minha situação, mas aos poucos fui pegando ritmo e ganhando confiança. Rolaram uns reggaes, uns showcases, dubs chapados, dubs steppers, um Sizzla e os tais dubtronics que a filipeta prometia. Pena é que no finalzinho do set me atrapalhei na transição das pick ups pros cdj's. Tinha levado uns quatro cd's, porque ainda não deu pra comprar vinis o suficiente, porém resolvi no final das contas tocar um só, o que encurtou o set em uns 15 minutos. Ia fazer uma ponte de peso pra chegar nos dois pancadões finais, um com a voz do Barrington Levy, outro com a do Yellowman, mas não rolou. Antes de mim, o mestre Calbuque fez um set recheado de clássicos pop. Teve Michael Jackson, George Micheal, Tracy Chapman, Marvin Gaye e até Beatles. Crasse A. Depois, Berna e Kassim esculacharam no live p.a de Gameboy. Já tinha ficado bobo com a apresentação dos caras na Casa da Gávea e ontem não foi diferente. Muito, muito foda. Já estava morto, mas pude acompanhar um pouco do John Woo, do Apavoramento Soundsystem, que, mais uma vez, mandou muito bem nos breaks e um pedacinho do Spark tocando um som totalmente ina robot style. Maneiro. Fui um festão. Quando é que tem outro, hein Bruno? Ah, quem gostou ou não conseguiu chegar a tempo, por causa do jogo do Brasil, dia 10, na Casa da Matriz, tem mais dub. FRANCISCO LINHARES ecos: Quarta-feira, Junho 02, 2004 ............................................................ É hoje!
Que jogo do Brasil que nada. A boa é chegar cedo na festinha! FRANCISCO LINHARES ecos: Terça-feira, Junho 01, 2004 ............................................................ Jamaica X Alemanha, parte 1
Ando pesquisando bastante sobre o novo dancehall, som que conheço muito pouco. Os motivos explico depois. Entre vários e vários searches no google, acabei encontrando uma pá de sound-systems bacanas na...Alemanha!. Doidera, não? Os caras tem uma cena local forte e consolidada, com milhares de entusiastas e até convites para tocar na...Jamaica! Uma das molas desse movimento é o Germaican, selo que anda produzindo riddims bastante interessantes, dentre os quais destaco o "Doctor's Darling", em cima do clássico "Nightnurse", do Gregory Isaacs. Entre os vocalistas que mandam ver em cima da base, estão feras jamaicanos como Sizzla, Junior Kelly, Michael Rose, Capleton e Anthony B, junto com a banda local Seeed. Mais a maior prova de que o dancehall na alemanha está bombando, foi um evento, patrocinado pela Germaican e pela revista Riddim, chamado Riddim Sound Clash, que reuniu uma multidão para apreciar o combate entre quatro sound-systems. Uma alemã, a Sentinel, uma americana, a Downbeat The Ruler, e duas jamaicanas, Black Kat e Killamanjaro. Nunca ouvi, nem muito menos assisti, um sound clash. E o legal, é que no site dos caras, há um longo texto, e também muitas fotos, explicando tim-tim por tim-tim como foi a batalha - público no meio, dois sistemas de um lado, dois do outro. As regras são claras: 15 minutos de introdução para cada sistema de som, seguidos por mais 15 minutos "valendo". Quem tirar menos aplausos da galera, analisados por um juíz, está fora. Os três sobreviventes ficam pra mais um round de 15, e os dois que ficaram vão para a finalíssima, o 'dub fi dub', a disputa de pênaltis do sound clash. Nessa parte do evento, cada sistema toca uma música seguida do outro, num total de dez. Simplismente emocionante. A descrição do combate vale muito a leitura, porque pode se perceber as táticas adotadas por cada um, o jeito, quase sempre muito escrotinho, com que os Mc´s falam dos outros sistemas e, principalmente, as músicas tocadas por cada um, às vezes pinta até mesmo um roots. Contar quem venceu é estragar parte da diversão. FRANCISCO LINHARES ecos: |
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